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Bis sextum: O desafio de medida do ano e o dia perdido

Atualizado: 18 de fev.


Alonso Campoi

17.fevereiro.2024


Nos dias atuais temos facilidade de marcarmos compromissos e datas, pois partimos de calendários já existentes, contudo não foi sempre assim ao longo da história da humanidade. Em essência, o calendário é uma referência criada pelos Seres Humanos, a partir de observações astronômicas ao longo de milhares de anos.


Há milhares de anos, entre 9.000 e 7.000 a.C., os egípcios foram um dos primeiros povos a propor um calendário com base no movimento do Sol* ao longo de um dia e ano e no movimento da lua ao longo de trinta dias. Perceberam que, dia a dia, a posição do sol, na linha do horizonte mudava, como mostrado na foto abaixo. As marcações iniciavam no período do equinócio (sol nasce no leste, visualmente) e se estendiam até que determinado ciclo fosse completo.

Do equinócio o sol se movimentava, cada vez mais lentamente, para o sudeste (a referência aqui é o hemisfério norte); no solstício de inverno ele parava e começavam seu movimento retrógrado; passava novamente pela posição do equinócio e continuava até determinada posição à nordeste, quando parava novamente; por fim voltava à posição do equinócio mais uma vez. Esse era um ciclo solar, ou seja, um ano solar aparente.




Sequência de imagens que apresenta o ciclo anual do sol. Naquela época essas marcações também aconteciam em relação à estrela Sirius, quando esta estrela encontrava o Sol perto da linha do horizonte no ocaso do Sol


Quer conhecer mais sobre o movimento do Sol em diferentes latitudes?


Os recursos para a marcação dessas posições eram rudimentares: rochas, árvores, morros e outros elementos da natureza. Portanto, marcar com exatidão a quantidade de dias que o sol completava esse ciclo não era tarefa fácil. Desse modo, os egípcios instituíram, um dos primeiros calendários, que se baseava em 360 dias para um ciclo solar, ou seja, o sol demorava 360 dias para sair da posição do equinócio e voltar para essa mesma posição após o ciclo completo. Tal calendário era dividido em 12 meses de 30 dias, começando sua marcação no dia do equinócio de primavera.



O círculo de pedras de Nabta Playa marca o solstício de verão, uma época que coincidiu com a chegada das chuvas de monções no deserto do Saara há milhares de anos.


Com o passar do tempo, os egípcios perceberam que essa divisão de 12 meses de 30 dias não estavam mas coincidindo com os eventos terrenos que dependiam dos eventos cósmicos. O início da primavera era uma data importante para os egípcios, pois marcavam a fim das inundações de verão do Nilo iniciando a época de plantio. De acordo com esse calendário, já não mais conseguiam prever o fim das inundações e perceberam haver um erro nesse calendário.


Entre 5.000 e 4.000 a.C., o calendário egípcio já contavam com 5 dias a mais dos 360 dias iniciais, ou seja, o calendário anual continuava sendo dividido em 12 meses de 30 dias com 5 dias a mais ao final de cada ano, começando sua marcação em data próxima ao equinócio de primavera. Esses 5 dias faziam parte de um mês intercalar, não pertenciam diretamente ao calendário, eram dias dedicados ao nascimento de alguns deuses: Osiris, Horus, Set, Isis e Néftis.


Aproximadamente 2.500 a.C., mais uma vez os astrônomos da época perceberam que que essa correção de 5 dias não davam mais conta de prever os eventos terrestres decorrentes dos astronômicos com exatidão e daí houveram muitas proposições para se acertar um calendário que fizesse boa previsão do evento astronômico. A solução mais plausível, nesses anos seguintes foi adicionar meses intercalares para que tal discrepância fosse corrigida.


O NASCIMENTO DO CALENDÁRIO JULIANO


Ao assumir o poder, o imperador romano Júlio César deparou-se com uma situação caótica na estruturação dos calendários. Determinado a corrigir tais equívocos, convocou o astrônomo grego Sosígenes, da escola de Alexandria, para analisar a situação e aconselhá-lo sobre as medidas necessárias. Após estudar o problema, Sosígenes constatou que o calendário romano estava adiantado em 67 dias em relação ao ano natural ou ciclo das estações. Para corrigir essa discrepância, Júlio César tomou a decisão de adicionar dois meses ao ano de 708 de Roma (46 a.C.), além do Mercedonius de 23 dias, que já estava previsto para ser intercalado naquele ano. Esses dois meses adicionais tinham 33 e 34 dias, respectivamente, e foram inseridos entre os meses de November e December. Isso resultou em um ano civil de 445 dias, o mais longo da história do calendário, conhecido como o Ano da Confusão.


A partir daí, adotou-se o calendário solar conhecido como Juliano, em homenagem a Júlio César. Esse calendário entrou em vigor no ano 709 de Roma (45 a.C.) e seguia um sistema de ciclos de quatro anos, com três anos comuns de 365 dias e um ano bissexto com 366 dias, para compensar as quase seis horas de diferença em relação ao ano trópico. O Mercedonius foi suprimido, e Februarius tornou-se o segundo mês do ano. A média do ano passou a ser de 365,25 dias, e o equinócio da primavera deveria ocorrer por volta de 25 de março.


Por que ano bissexto?


A forma de contagem dos dias, dentro de um mês, pelas antigas civilizações não eram por dias progressivos como fazemos hoje. O mês do calendário Juliano tinha: as calendas (primeiro dia do mês), Nonas (perto do sétimo dia do mês) e Idos (perto do décimo quarto dia do mês), coincidindo com as fases lunares. Perto do vigésimo primeiro dia, o mês entrava em contagem regressiva para a próxima calenda. No início de março, historicamente, o primeiro mês do ano, existiam dias que antecediam a calenda de março ou ante diem kalendas martias.


7° dia antes das calenda de março (ante diem septimum kalendas martias) = 22 de fevereiro

6° dia antes das calenda de março (ante diem sextum kalendas martias) = 23 de fevereiro

5° dia antes das calenda de março (ante diem quintum kalendas martias) = 24 de fevereiro

4° dia antes das calenda de março (ante diem quartum kalendas martias) = 25 de fevereiro

3° dia antes das calenda de março (ante diem tertium kalendas martias) = 26 de fevereiro

2° dia antes das calenda de março (ante diem secundo kalendas martias) = 27 de fevereiro

1° dia antes das calenda de março (pridiem kalendas martias) = 28 de fevereiro

A calenda de março ( primus kalendas martias) = 1º de março


Aqui também se carregava a cultura que os últimos 5 dias eram os dias do mês intercalar, portanto, os astrônomos de Júlio César sugeriram a introdução de um segundo 6° dia para a calenda de março, em um a cada quatro anos.


7° dia antes das calenda de março (ante diem septimum kalendas martias) = 22 de fevereiro

6° dia antes das calenda de março (ante diem sextum kalendas martias) = 23 de fevereiro

6° dia antes das calenda de março (ante diem bis sextum kalendas martias) = 24 de fevereiro

5° dia antes das calenda de março (ante diem quintum kalendas martias) = 25 de fevereiro

4° dia antes das calenda de março (ante diem quartum kalendas martias) = 26 de fevereiro

3° dia antes das calenda de março (ante diem tertium kalendas martias) = 27 de fevereiro

2° dia antes das calenda de março (ante diem secundo kalendas martias) = 28 de fevereiro

1° dia antes das calenda de março (pridiem kalendas martias) = 29 de fevereiro

A calenda de março ( primus kalendas martias) = 1º de março


Como o nome era muito cumprido para ser pronunciado, utilizavam apenas bis sextum em latim ou bissexto em português. O segundo seis não tem nada a ver com termos dois 6 na quantidade de dias deste ano 366!!!


No entanto, o ciclo de 4 anos, proposto por Sosígenes inicialmente foi mal aplicado. Ao invés de seguir a recomendação do astrônomo, que indicava a contagem de 3 anos comuns e um bissexto, os pontífices romanos distorceram a contagem, intercalando um ano bissexto a cada 3 anos. Nos primeiros 36 anos de implementação do calendário Juliano, foram inseridos 12 anos bissextos em vez de 9, devido a esse equívoco. Para corrigir tal erro, César Augusto suspendeu as intercalações por 12 anos, retomando a prática de inserir um ano bissexto a cada 4 anos, conforme a orientação correta.

Na mesma época, ocorreram na Terra Santa os eventos cruciais da Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, marcando o surgimento do cristianismo. Esses acontecimentos tiveram impacto significativo na evolução do calendário Juliano, influenciando a definição das regras para a determinação da data da Páscoa e a oficialização da semana no calendário romano.


A DATA DA PÁSCOA


Os cristãos do oriente celebravam a Páscoa no dia 14 da primeira Lua que começasse em março, independente do dia da semana. Já os cristãos do ocidente a celebravam no domingo seguinte a esse dia. Essa discrepância gerou intensas polêmicas entre os líderes das duas igrejas. O Concílio de Niceia (ano 325 d.C.) resolveu a questão, decidindo que a Páscoa seria celebrada universalmente no domingo seguinte à lua cheia que coincidisse com o equinócio da primavera ou imediatamente após.

À medida que os cristãos ganhavam influência, necessitavam da semana hebraica para suas práticas religiosas, mantendo o preceito do descanso no sétimo dia. Assim, a semana hebraica foi gradualmente adotada no calendário romano, levando ao desuso das calendas, nonas e idus.

Importante destacar que o ano de 365,25 dias do calendário Juliano é aproximadamente 11 minutos e 14 segundos mais longo que o ano trópico. Ao longo dos anos, essa diferença acumula um dia a cada 128 anos e cerca de três dias a cada 400 anos. Desse modo, o equinócio da primavera, que ocorria por volta de 25 de março no tempo de Sosígenes, ocorreu em 21 de março no Concílio de Niceia, quase quatro séculos depois.


O NASCIMENTO DO CALENDÁRIO GREGORIANO


Muitos anos se passaram e em 1582, durante o papado de Gregório XIII (Ugo Boncampagni, 1502-1585), observou-se que o equinócio vernal já ocorria em 11 de março, antecipando consideravelmente a data da Páscoa. Essa constatação levou à dedução de que o ano era mais curto do que a estimativa de 365,25 dias. A diferença que acumulava 1 dia a cada 128 anos, totalizava 10 dias naquele ano específico. Em resposta a essa discrepância, o papa implementou uma nova reforma no calendário, orientado pelo astrônomo jesuíta alemão Christopher Clavius (1538-1612), resultando na criação do Calendário Gregoriano.


As reformas, anunciadas na bula papal Inter Gravissimas em 24 de fevereiro de 1582, foram as seguintes:


  1. Remoção de 10 dias do ano de 1582, realinhando o Equinócio Vernal para 21 de março. Dessa forma, o dia seguinte a 4 de outubro de 1582 (quinta-feira) passou a ser 15 de outubro de 1582 (sexta-feira).

  2. Introdução da regra de que anos múltiplos de 100 não seriam bissextos, a menos que fossem também múltiplos de 400.

  3. Alteração da data do dia extra do ano bissexto de 25 de fevereiro (sexta calenda antes de março) para 28 de fevereiro, e a celebração do ano novo foi estabelecida em 1º de janeiro, em referência ao nascimento de Cristo.


Atualmente conhecemos que o ano tropical é 365,2422 e decompondo esse número chegamos:


365,2422 = 365 + 0,25 - 0,01 + 0,0025 - 0,0003

em fração:

365,2422 = 365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/3333


+0,25 = +1/4, ou seja, adiciona-se 1 dia a cada 4 anos

-0,01 = -1/100, ou seja, retira-se 1 dia a cada 100 anos

+0,0025 = +1/400, ou seja, adiciona-se 1 dia a cada 400 anos

-0,0003 = - 1/3333, ou seja, retira-se 1 dia a cada 3333 anos


O calendário gregoriano apresenta falhas tanto do ponto de vista astronômico quanto do prático. Por essa razão, vários pesquisadores, provenientes de diversas igrejas, organizações internacionais e até mesmo setores privados, têm se dedicado ativamente à reforma do calendário.


Do ponto de vista astronômico, sua principal imperfeição reside no fato de ser ligeiramente mais longo que o ano trópico, resultando em uma diferença de um dia a cada cerca de 3300 anos (a duração média do ano no calendário gregoriano é de 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos, atualmente excedendo em 27 segundos o ano trópico). Essa pequena discrepância não acarreta inconvenientes imediatos, e uma reforma para corrigi-la enfrentaria sérios problemas, provocando descontinuidades com implicações cronológicas complicadas.


Essas modificações foram adotadas imediatamente em países católicos, como Portugal, e consequentemente no Brasil, bem como na Itália, Espanha, França, Polônia e Hungria. Entretanto, somente em setembro de 1752 a Inglaterra e os Estados Unidos implementaram as mudanças, onde o dia seguinte a 2 de setembro de 1752 foi o 14 de setembro de 1752. A Revolução Russa também trouxe a adoção do Calendário Gregoriano, transformando o dia seguinte a 31 de janeiro de 1918 no 14 de fevereiro de 1918.



nota de rodapé:


*No contexto do ensino fundamental da escola Waldorf, não fazemos a distinção de movimento ou movimento aparente (termo adequado para este movimento), já que naquela idade, os alunos vivenciam o movimento do Sol a partir do seu ponto de vista. Sabemos da aparência do movimento por reconhecermos o heliocentrismo como o modelo vigente para as observações astronômicas, isso só será descoberto mais tarde pelos estudantes.

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